RAIO-X com João Lencastre

Nesta edição do RAIO-X, entrevistámos o nosso endorser João Lencastre. Um baterista que se movimenta entre o jazz e o rock, é acompanhado por grandes nomes da música nacional e internacional, confirmação de uma carreira já longa e preenchida.

Gosta de pratos com som antigo como Zildjian Constantinople e Kerope, mas não é nada alheio às tecnologias que lhe permitam expressar a sua criatividade na bateria.

Artista internacional da marca Zildjian, também toca com peles Remo e rods Innovative Percussion.

RAIO-X João Lencastre com a colaboração de Jorge Trigo (facebook).

Road Crew – Consideras-te um músico ou um baterista que faz música? E tocas ou já tocaste algum outro instrumento?

João Lencastre – A minha relação com a música não se limita a tocar bateria, também componho e leio música, por isso diria que sou músico e uso a bateria como o principal meio de expressão. Toco um pouco de piano, o suficiente para compor o que me vai na cabeça e há uns anos tive umas aulas de trompete, mas já há muito tempo que não pego nele…

RC – Lembras-te de quando percebeste que ias ser baterista? Podes falar-nos um pouco sobre esta fase?

JL – Sim, claro que me lembro! Foi quando aos 12 anos vi o teledisco dos Metallica, o “One“. Lembro-me de ver o Lars Ulrich com dois bombos, imensos pratos, etc… e achar “granda pinta, também quero!”. Durante alguns meses ainda toquei em almofadas e com canetas durante as aulas, uns meses mais tarde tive finalmente a primeira bateria…

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RC – Atualmente fazes mais trabalho de sessão ou preferes dedicar-te a um projecto, como tem acontecido com o teu Communion? Consideras que o ser membro integrante de uma banda difere do trabalho “pontual” em que aspetos?

JL – Grande parte dos projetos com que vou tocando são coisas regulares. Ao vivo acontece por vezes um concerto pontual em que vou substituir alguém, em estúdio é muito raro isso acontecer. Quando se tem um projecto regular há várias coisas que se podem ir trabalhando ao longo do tempo, limar algumas arestas, etc, assim como a relação com os restantes elementos do grupo. Vai-se construindo uma maior empatia musical, e uma maior confiança que nos permite mais facilmente sabermos até onde podemos arriscar e como reagir em certas situações.

Conheci o David Binney em 2002 durante a minha primeira estadia em NY

RC – Como é que começou a tua relação com músicos internacionais, nomeadamente com o saxofonista Norte-americano David Binney – que, pelo que sei, vem de há cerca de… quinze anos? E preferes esse tipo de trabalho ou algo mais “local”, como os projetos que tens tido com o Tiago Bettencourt, Blasted Mechanism, No Project Trio ou GRIP 5?

JL – Conheci o David Binney em 2002 durante a minha primeira estadia em NY e tocámos pela primeira vez no verão de 2003 numa tournée que organizei em Portugal. Desde então que ficámos muito amigos e tocámos e gravámos por diversas vezes juntos. É sempre uma experiência incrível tocar com o David Binney e com outros músicos de NY que fui conhecendo ao longo dos anos como o Jacob Sacks, Thomas Morgan, Phil Grenadier, Benny Lackner, entre muitos outros. Há sempre uma grande excitação porque nos vemos poucas vezes e somos também bons amigos, mas tenho igual prazer com os projectos nacionais com que toco.

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RC – Identificas-te mais com a cena jazz – seja escrito ou improvisado – ou com os outros estilos de música que tens tocado? E achas que o facto de tocares e ouvires música tão diversificada é uma coisa geracional ou individual?

JL – Gosto de tocar e ouvir todo o tipo de música que me transmita alguma emoção. Vejo a música como um todo, não costumo rotular e deixo que a música me diga o que tocar. Felizmente hoje em dia só toco com músicos com o qual tenho grande empatia e admiração e fica fácil da coisa acontecer, é só deixar fluir…
Essa pesquisa constante sempre foi natural em mim desde que era bastante jovem. Hoje em dia com a internet tudo se torna mais fácil, na altura apanhava o autocarro a seguir às aulas e ia à Palladium nos restauradores e a outras lojas para descobrir discos ou bateristas que tinha visto nalguma revista ou que me tinham falado, desde Primus a Frank Zappa, Joey Baron com o Bill Frisell, Miles Davis, Slayer, Death, Tony Allen, John Scofield, Dead Kennedys, Cynic, Jimi Hendrix, The Doors entre muitas outras coisas…

RC – Até que ponto achas importante a presença virtual de um músico hoje em dia, nomeadamente com um site, página Facebook, Bandcamp e canal de Youtube, como no teu caso? E pensas que isso será sempre só um complemento ou que para muitas pessoas será mesmo a única parte de ti que conhecem?

JL – Acho que é muito importante e é uma ótima maneira dos músicos darem a conhecer o seu trabalho e de as pessoas chegarem até nós, não só a nível nacional mas também internacional. Mas espero que seja só um complemento, e espero que as pessoas me possam ir ouvir ao vivo e que já agora que comprem os meus discos 🙂

projectos de jazz e improvisação toco com bombo de 18″ e com o Tiago Bettencourt e projectos mais rock com bombo 20″ ou 22″

RC – Tens um set habitual de bateria ou tens de o ir adequando aos projetos em que te envolves?

JL – Toco sempre com o mesmo número de peças, só o bombo varia, com os projectos de jazz e improvisação toco com bombo de 18″ e com o Tiago Bettencourt e projectos mais rock com bombo 20″ ou 22″. Ultimamente tenho explorado bastante a cena electrónica com um Roland SPD-SX, pedal de loops e triggers… Inicialmente comecei a usar apenas com o Tiago, mas nos últimos dois anos tenho andado a explorar também nos projetos de improvisação, nos duos com os guitarristas André Fernandes e Pedro Branco, no trio com o Vojtech Prochazka e Demian Cabaud e no meu Communion… E brevemente quero começar a fazer alguns concertos a solo. É todo um novo mundo com infinitas possibilidades e que me dá muito gozo explorar.

RC – Tens uma “arma secreta” no teu setup?

JL – Sim, os pratos! Com as baterias dá sempre para afinar, abafar e apesar de preferir tocar sempre com a minha, a coisa dá-se, mas com os pratos isso já não é bem assim, levo-os sempre comigo! Tenho usado sobretudo a série Constantinople e Kerope da Zildjian e são instrumentos incríveis, muito versáteis e que me inspiram em cada situação musical!

RC – Conta-nos uma história da tua carreira que nunca te vais esquecer.

JL – Na véspera da tournée que antecedeu a gravação do primeiro disco com o meu grupo Communion que contava com a participação do André Matos, Demian Cabaud e os Norte Americanos Phil Grenadier e Bill Carothers, rebentou-me uma hérnia discal que não fazia ideia que a tinha… fiquei quase paralisado e tive de ser imediatamente operado. Isso impossibilitou me de fazer a primeira semana da tournée, o Alexandre Frazão e o Marcos Cavaleiro tocaram alguns dos concertos, outros foram sem bateria. Foi uma enorme frustração depois de tanto trabalho em organizar tudo e sobretudo por anteceder a gravação do meu primeiro disco enquanto líder. O médico que me operou disse-me que a recuperação seria de 3 a 4 semanas até conseguir fazer qualquer coisa, mas eu disse-lhe que mal ele me operasse e me conseguisse pôr de pé que ia fazer a segunda semana da tournée e a gravação, e assim aconteceu… A operação foi numa sexta-feira e na quarta-feira a seguir já estava de volta a tocar. O médico não acreditava que fosse possível e foi assistir ao concerto. No final disse me que se não tivesse visto que não acreditava… O que é certo é que a força de “cabeça” consegue superar muito mais do que imaginamos e no final acabou por correr tudo bem, ainda que com dores e recorrendo ao uso de analgésicos, cinta para as costas, etc… mas foi uma experiência incrível e ficou um bom disco gravado, que acabou fazer parte dos “melhores do ano” nas escolhas do Ípslon, jazz.pt, entre outros, assim como várias boas críticas internacionais.

Ípslon – Uma bateria de jazz que se move ao ritmo do afrobeat

speed is not important, clarity and control is the key!

RC – Por último, um conselho para quem está a começar a tocar.

JL – Preocupem-se logo de início em ter uma boa postura! Foquem-se numa coisa de cada vez, oiçam muita música e vão assistir ao maior número de concertos possível. Hoje em dia é tão fácil ter acesso a todo o tipo de informação que facilmente perdemos o foco.
Outra coisa importante é não ter pressa em querer fazer as coisas rápido quanto se pratica.Quando estudei em Nova Iorque com o Billy Kilson, uma das coisas que ele dizia sempre era “speed is not important, clarity and control is the key!”

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